“A sensação é tudo, afirma Caeiro, e o pensamento é uma doença. Por sensação entende Caeiro a sensação das coisas tais quais são, sem acrescentar quaisquer elementos do pensamento pessoal, convenção, sentimento ou qualquer outro lugar da alma. [...] Caeiro tem uma disciplina: as coisas devem ser sentidas como são. [...] Caeiro não tem ética a não ser a simplicidade”.
Fernando Pessoa
PESSOA, F. Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Lisboa: Ed. Ática, 1966
“Sou um guardador de rebanhos.
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.
Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.
Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto,
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,
Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz”
Alberto Caeiro (Fernando Pessoa), “O guardador de rebanhos”, IX (publicado em 1925).
PESSOA, F. O guardador de rebanhos e outros poemas –
Poesia completa de Alberto Caeiro. São Paulo: Landy Editora, 2006
“Não basta abrir a janela
Para ver os campos e o rio.
Não é bastante não ser cego
Para ver as árvores e as flores.
É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Com filosofia não há árvores: há idéias apenas.
Há só cada um de nós, como uma cave.
Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora;
E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,
Que nunca é o que se vê quando se abre a janela”.
Alberto Caeiro (Fernando Pessoa), “Poemas inconjuntos”
PESSOA, F. O guardador de rebanhos e outros poemas –
Poesia completa de Alberto Caeiro. São Paulo: Landy Editora, 2006





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