"Sobre um mar de rosas que arde
Em ondas fulvas, distante,
Erram meus olhos, diamante
Como as naus dentro da tarde.
Asas no azul, melodias,
E as horas são velas fluidas
Da nau em que, oh! alma, descuidas
Das esperanças tardias".
Pedro Militão Kilkerry (1885-1917)
"Espécie de simbolista transviado ou desgarrado, este boêmio [Kilkerry] tinha fama de maldito nas rodas da capital baiana. Nada deixou em livro e, além de esparsa como bibliografia, sua poesia é fragmentária como linguagem — tão descontínua e desconexa que despertou a atenção dos concretistas para o pioneirismo do poeta em relação às vanguardas nacionais, a começar pelo modernismo, passando pelo surrealismo e chegando ao próprio concretismo. Sua sintaxe hermética e seu vocabulário enigmático fazem supor o delírio dum alucinado, mas logo desfazem tal impressão por força da rigidez formal do soneto. Resta o impacto do nonsense que, a todo momento, produz o efeito dum bestialógico, aliás muito eficaz se declamado em público, perante platéia jovial. Talvez não fosse a intenção do poeta, nem a de Augusto de Campos ao resgatar-lhe a importância. Mas que nosso mallarmaico baiano tem algo de maluco-beleza, lá isso tem..."
Glauco Mattoso [ disponível em http://paginas.terra.com.br/arte/PopBox/sonetario/kilkerry.htm ]
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