terça-feira, 6 de março de 2007

Rilke-Pantera








Considerado um dos mais expressivos poetas modernos da literatura alemã, Rainer Maria Rilke nasceu em 04/12/1875, em Praga (que era então capital da Boêmia e fazia parte do Império Austro-Húngaro) e morreu em 29/12/1926, em Val-Mont (Suíça).

Em 1903, Rilke escreveu um poema que se tornaria famoso, Der Panther ("A pantera"), transcrito logo abaixo em duas versões para o português: uma, de Augusto de Campos; outra, de Geir Campos.
Denso e imagético, o consagrado poema aponta, entre outros aspectos, para a questão do sujeito encarcerado em si mesmo.

O indivíduo preso dentro de si próprio, simultaneamente enjaulado e desesperado por se expandir e se afirmar nos campos intelectual, afetivo e sexual, representa uma difícil condição existencial que foi amplamente analisada pelo médico e cientista natural Wilhelm Reich (1897-1957).
Encouraçamento foi o termo que Reich utilizou para indicar o enrijecimento crônico, automatizado e repetitivo que limita a potência "vida". Submetido às intempéries de um sistema econômico desumano e aos corrosivos valores de uma cultura patriarcal que pouca atenção dá à vida-potência, o indivíduo vê-se, freqüentemente, diante de dolorosos e complexos dilemas existenciais. A solução, muitas vezes, é o amortecimento; no entanto, tal anestesiamento, de acordo com a teoria reichiana, acaba impondo limites
, também, às capacidades pessoais de sentir prazer e raciocinar de forma crítica.

Amparado em grande quantidade de descobertas, Reich, na maturidade de sua obra, publicou uma hipótese sobre a origem do processo de encouraçamento: o núcleo da couraça humana, cogitou o autor em Cosmic superimposition (1951), talvez seja constituído por uma milenar disfunção de caráter meta-perceptivo (o "susto" paralisante que nossos ancestrais teriam vivenciado ao "perceberem que percebem"). Mas, para o cientista austro-húngaro, tal suposição sobre a primitiva origem da couraça não invalidava o fato de que as sociedades autoritárias, com suas práticas repressivas e seus valores anti-vida, continuamente
perpetuam o processo de encouraçamento.

Rebatendo críticas que apontavam-no como um hedonista ingênuo, Reich fez uma elucidativa ponderação em
The function of the orgasm, sua autobiografia científica de 1942: "Fui acusado de ser um utópico, de querer eliminar o desprazer do mundo e defender apenas o prazer. Contudo, tenho declarado claramente que a educação tradicional torna as pessoas incapazes para o prazer encouraçando-as contra o desprazer. Prazer e alegria de viver são inconcebíveis sem luta, experiências dolorosas e embates desagradáveis consigo mesmo. [...] A capacidade de suportar o desprazer e a dor sem se tornar amargurado e sem se refugiar na rigidez, anda de mãos dadas com a capacidade de aceitar a felicidade e dar amor".
Reich tinha plena consciência, porém, que não é tarefa simples "suportar o desprazer e a dor sem se tornar amargurado e sem se refugiar na rigidez". E se dedicou, por quase quarenta anos, à busca de soluções clínicas, pedagógicas e sociológicas para o problema da "resignação" humana.

Voltando a Rilke: fazendo uso daquela força estética tão específica que reconfigura e condensa signos (força essa que, muitas vezes, só o fazer artístico dispõe), o poeta, a meu ver, descreveu de forma contundente, em A pantera, o enjaulamento de si mesmo. Trata-se certamente de poema que, como toda grande obra, suscita as mais diversas interpretações; mas os movimentos e expressões da pantera de Rilke não deixam dúvidas quanto ao isolamento, a prisão interior, a solidão e, até mesmo, a resignação.

Se uma imagem vale, às vezes, por mil palavras, uma pequena quantidade de palavras também pode, em alguns momentos, oferecer uma síntese conceitual única.
A pantera é um bom exemplo disso: nesse trabalho de alta densidade poética é viável identificar uma tradução literária do fenômeno "encouraçamento", descrito por Reich de um ponto de vista científico.
Ciência e Literatura apresentam, em minha opinião, linguagens e modos expressivos distintos, por mais que certas tendências "pós-modernas" insistam em querer destruir as barreiras que separam as duas disciplinas; infelizmente, tais propostas de "desconstrução" não levam em conta os perigos sociais e epistemológicos que os rompimentos simplistas de fronteiras acarretam.
Entretanto, Arte e Ciência podem verdadeiramente se comunicar; senão vejamos:


A PANTERA
Rainer Maria Rilke
(Trad. Augusto de Campos)

(No Jardin des Plantes, Paris)

De tanto olhar as grades seu olhar
esmoreceu e nada mais aferra.
Como se houvesse só grades na terra:
grades, apenas grades para olhar.

A onda andante e flexível do seu vulto
em círculos concêntricos decresce,
dança de força em torno a um ponto oculto
no qual um grande impulso se arrefece.

De vez em quando o fecho da pupila
se abre em silêncio. Uma imagem, então,
na tensa paz dos músculos se instila
para morrer no coração.

A PANTERA
Rainer Maria Rilke
(Trad. Geir Campos)

(No Jardin des Plantes, Paris)

Varando a grade, a nada mais se agarra
o olhar tomado de um torpor profundo:
para ela é como se houvesse mil barras
e, atrás dessas mil barras, nenhum mundo.

Seu firme andar de passos gráceis, dentro
dum círculo talvez muito apertado,
é uma dança de força em cujo centro
ergue-se um grande anseio atordoado.

De raro em raro, só, o véu das pupilas
abre-se sem ruído — e deixa entrar
a imagem, que sobe, pelas tranqüilas
patas, ao coração, para aí ficar.


No Espaço ORG2, há uma página que apresenta o texto original de Der Panther e, também, traduções do poema para o português, espanhol, francês e inglês; "A pantera multilíngüe" está disponível em
http://www.org2.com.br/rilke-pantera.htm

sábado, 3 de março de 2007

Kaváfis-Ítaca








Tido como um dos mais importantes poetas de língua grega do século passado, Konstantinos Kaváfis (1863-1933) nasceu e faleceu em Alexandria (Egito). Kaváfis, de acordo com os organizadores de sua obra, deixou "apenas" 154 poemas concluídos, entre eles, Ítaca, inserido logo abaixo, em tradução publicada recentemente por Ísis Borges da Fonseca.


Escrito em 1911, Ítaca pode ser visto como um poema que aborda, de forma delicada e tocante, as vicissitudes da jornada existencial, a "fenomenologia" do movimento humano de busca, a tensão que se estabelece entre o "aqui-agora" e as metas projetadas no futuro. Talvez caiba afirmar, ainda, que esse escrito de Kaváfis é um verdadeiro "refresco" para esse séc. XXI, marcado por pressões cada vez mais urgentes. Mas essas são, apenas, algumas possíveis interpretações de um poema que, por ser uma obra-prima, tem a capacidade caleidoscópica de produzir, continuamente, novos entendimentos, novas significações.

ÍTACA
Konstantinos Kaváfis

Quando partires em viagem para Ítaca
faz votos para que seja longo o caminho,
pleno de aventuras, pleno de conhecimentos.
Os Lestrigões e os Ciclopes,
o feroz Poseidon, não os temas,
tais seres em teu caminho jamais encontrarás,
se teu pensamento é elevado, se rara
emoção aflora teu espírito e teu corpo.
Os Lestrigões e os Ciclopes,
O irascível Poseidon, não os encontrarás,
Se não os levas em tua alma,
Se tua alma não os ergue diante de ti.

Faz votos de que seja longo o caminho.
Que numerosas sejam as manhãs estivais,
nas quais, com que prazer, com que alegria,
entrarás em portos vistos pela primeira vez;
pára em mercados fenícios
e adquire as belas mercadorias,
nácares e corais, âmbares e ébanos
e perfumes voluptuosos de toda espécie,
e a maior quantidade possível de voluptuosos perfumes;
vai a numerosas cidades egípcias,
aprende, aprende sem cessar dos instruídos.

Guarda sempre Ítaca em teu pensamento.
É teu destino aí chegar.
Mas não apresses absolutamente tua viagem.
É melhor que dure muitos anos
e que, já velho, ancores na ilha,
rico com tudo que ganhaste no caminho,
sem esperar que Ítaca te dê riqueza.
Ítaca deu-te a bela viagem.
Sem ela não te porias no caminho.
Nada mais tem a dar-te.

Embora a encontres pobre, Ítaca não te enganou.
Sábio assim te tornaste, com tanta experiência,
já deves ter compreendido o que significam as Ítacas.

1911
(Trad.: Ísis Borges da Fonseca)

Os 154 poemas que Kaváfis finalizou podem ser encontrados, em português, na cuidadosa edição bilíngue: Poemas de K. Kaváfis - Tradução, estudo e notas de Ísis Borges da Fonseca. São Paulo: Odysseus Editora, 2006.

Em uma página do Espaço ORG2, reuni outras traduções de Ítaca para o português e, também, para o espanhol, inglês, italiano e francês. “Ítaca Multilingüe” está disponível em
http://www.org2.com.br/kavafis.htm

É possível, ainda, ouvir o próprio Kaváfis declamando Ítaca; o arquivo de som pode ser acessado em
http://users.hol.gr/~barbanis/cavafy/Cavafy-Ithaca.mp3